https://www.instagram.com/we.holon/ https://www.linkedin.com/company/weholon https://www.facebook.com/weholon-102415231543436

O business case contra o business case

01 de agosto de 2025 por Cláudia Miranda Gonçalves

Texto originalmente publicado no Blog Lentes de Decisão, no Estadão Digital, em Economia e Negócios, em 01/08/2025

https://www.estadao.com.br/economia/lentes-de-decisao/o-business-case

Quando justificar nossa humanidade se torna desumano

“Preciso tirar férias para voltar mais criativo.” “Vou meditar porque aumenta minha produtividade.” “Esse curso de culinária vai melhorar meu networking.”  Se você já ouviu – ou disse – frases assim, testemunhou algo perturbador: a transformação de nossa humanidade em commodity corporativa. Viramos nossos próprios departamentos de procurement, negociando internamente cada momento de pausa, cada relacionamento, cada experiência que não gere valor mensurável.

A pergunta que não fazemos é: quando começamos a terceirizar nossa dignidade humana para planilhas de ROI? E mais importante: que tipo de liderança estamos exercendo quando nem nossa própria humanidade escapa da lógica extrativista?

O Diagnóstico: Somos Recursos de Nós Mesmos

A escritora Bree Groff capturou com precisão cirúrgica nossa condição atual: transformamos cada aspecto humano em justificativa para maior performance. Dormimos melhor “para sermos mais produtivos”. Cultivamos relacionamentos “para expandir nossa rede”. Até nossos momentos de introspecção precisam vir acompanhados de um business case. 

Essa mentalidade não nasceu no vácuo. Décadas de “gestão de recursos humanos” criaram uma linguagem que nos ensinou a enxergar pessoas – incluindo nós mesmos – como ativos a serem otimizados. O problema é que, quando internalizamos essa lógica, deixamos de ser humanos para nos tornarmos gestores de nossa própria humanidade.

O resultado? Executivos que não conseguem mais tomar um café sem transformá-lo em “oportunidade de mentoria”. Empreendedores incapazes de ler um livro sem extrair “insights aplicáveis ao negócio”. Líderes que perderam a capacidade de simplesmente existir sem produzir valor.

Criamos uma economia interna onde cada respiração precisa gerar dividendos. E quando nossa humanidade vira ativo, inevitavelmente ela se deprecia.

O Que Você Não Vê: As Consequências Invisíveis

Enquanto celebramos líderes que “otimizam seu bem-estar”, ignoramos o custo oculto dessa instrumentalização. Primeiro, perdemos a capacidade de experienciar momentos sem extrair valor deles. Um pôr do sol vira “momento de reflexão estratégica”. Uma conversa com o filho vira “exercício de escuta ativa para melhorar liderança”.

Segundo, criamos organizações que praticam “bem-estar performático” – programas de meditação que medem redução de turnover, políticas de flexibilidade que calculam ganhos de produtividade. A mensagem subliminar é clara: sua humanidade só importa se gerar resultados.

O mais perverso é que isso gera um tipo especial de burnout: o esgotamento de sempre ter que justificar nossa própria existência. Quando até nossos momentos de pausa precisam vir com disclaimer de valor agregado, onde encontramos descanso genuíno?

Líderes nessa condição criam culturas organizacionais tóxicas mesmo com as melhores intenções. Transmitem, inconscientemente, que pessoas só têm valor enquanto produzem valor.

Contranarrativas: Liderança Fora do Business Case

E se o verdadeiro ato de liderança fosse questionar essa lógica desde a raiz? Imagine organizações que defendem políticas baseadas em dignidade humana, não em performance. Como seria trabalhar em um lugar onde você pode tirar uma pausa sem justificar como isso beneficiará a empresa?

O que aconteceria se criássemos reuniões onde equipes se conectam como pessoas, não como funções? Sem agenda de negócios, sem action items, apenas seres humanos compartilhando experiências? Parece revolucionário porque, de fato, é.

O reframe necessário é simples, mas revolucionário: de “como posso ser mais produtivo sendo mais humano?” para “como posso ser mais humano liderando pessoas?”. Isso significa defender o direito das pessoas de terem vidas ricas e significativas sem precisar traduzi-las em métricas corporativas.

Na prática, isso se manifesta em pequenos atos de resistência: não perguntar “o que você aprendeu?” depois de cada experiência de um colaborador. Criar espaços para conversas que não geram ação items. Modelar comportamentos que demonstram que nossa humanidade tem valor intrínseco.

Quando líderes param de instrumentalizar sua própria humanidade, dão permissão para que outros façam o mesmo.

A Provocação Final

Aqui está o teste mais simples para avaliar se você virou refém do business case pessoal: quando foi a última vez que você fez algo genuinamente só por ser humano? Sem agenda oculta de networking, sem objetivo de autodesenvolvimento, sem esperança de ROI emocional ou profissional?

Se você demorou para responder, talvez seja hora de demitir seu departamento interno de recursos humanos. Sua humanidade não precisa de aprovação do board. Ela não é uma estratégia. Ela é, simplesmente, você.

O verdadeiro ato de liderança pode ser este: parar de vender para si mesmo – e para sua equipe – a ideia de que precisamos justificar nossa existência com planilhas. Algumas coisas são importantes simplesmente porque somos humanos.

E isso não precisa de business case.

Afinal, qual é o ROI de uma vida bem vivida? Talvez essa seja exatamente a pergunta errada.

Voltar

Este site utiliza cookies para melhorar a sua experiência. Nós assumimos que isto é ok para você, mas você pode desativar se quiser. Estou de acordo.
Se você quiser entender melhor o uso dos cookies veja mais aqui – Política de Cookies.

Concordar e fechar