
A Arte de Decorar Vazios: Quando as Decisões Revelam o Que (Ainda) Não Está no Mapa
Texto originalmente publicado no Blog Lentes de Decisão, Estadão Digital, em 01/04/2025
https://www.estadao.com.br/economia/lentes-de-decisao/a-arte-de-decorar-vazios
Há uma lista lunar — Moon List — que propõe um exercício intrigante: registrar o que carregamos no bolso para tornar a jornada mais cinética, intencional e divertida. Não falamos de objetos, mas daquilo que, invisível, nos move. Nas salas de reunião, nos home-offices, nos corredores acelerados das empresas, executivos também carregam “itens” ocultos: dúvidas não verbalizadas, histórias de fracassos que doem como lições, intuições que desafiam planilhas. São essas bagagens que, paradoxalmente, nos armam para o imprevisível. Como disse a poeta Mary Oliver, “a maior armadura que temos é nossa capacidade de nos deixar mover”.
Aqui, entra em cena a Arte de Decorar Vazios — uma metáfora para a coragem de reconhecer, honrar e trabalhar com o que não está explícito, mas pulsa nas entrelinhas de toda decisão. Não se trata de “preencher lacunas” (como se o vazio fosse um problema a ser resolvido), mas de emoldurar o invisível que influencia cada movimento estratégico. Nora Bateson nos lembra: “A abertura para o movimento contínuo está no ‘não é’ (o mapa não é o território)”. Planos de negócios, projeções financeiras, análises de mercado — todos são mapas úteis, mas nenhum deles é o território vivo onde a decisão se desdobrará.

O Que Há no Bolso dos Líderes Que Decoram Vazios?
- Poeira de Futuros Possíveis: Decisões sábias nascem quando permitimos que cenários contraditórios coexistam. Um CEO me confessou certa vez: “Minha melhor decisão veio após uma noite em que dormi com duas opções radicalmente opostas sob o travesseiro”. Esse é o cerne de “decorar vazios”: abrir espaço para o incerto, o ambíguo e o inexplorado, em vez de sufocá-los com respostas prematuras.
- Um Relógio Quebrado (Que Marca Outros Tempos): Mercados exigem agilidade, mas decisões perenes demandam ritmos diversos. Incluir “mais tempo” na equação não é procrastinação — é reconhecer que algumas variáveis só se revelam quando saímos da sala espelhada do presente imediato. O vazio aqui é o silêncio entre os dados, onde insights amadurecem.
- A Chave do Porão Onde Guardamos o Selvagem: “Reivindicar o que é ‘selvagem e precioso’” não é poesia vaga — é estratégia. Qual é o “selvagem” no seu negócio? Aquela pergunta ingênua que ninguém faz, a intuição que desafia a lógica, o sinal fraco que não cabe em planilhas. Decorar esses vazios significa atribuir valor ao que ainda não tem forma, transformando incertezas em combustível para inovação.
Por Que Isso É Revolucionário?
Vivemos a era da “ditadura da certeza”. Algoritmos prometem respostas, métricas ditam verdades, e ainda assim, crises globais seguem nos surpreendendo. A arte de decorar vazios nos convida a:
- Cultivar decisões antifrágeis: Sensíveis ao que está em gestação (tendências nascentes, paradoxos culturais, perguntas sem resposta).
- Humanizar a estratégia: Trazer para a mesa as histórias não contidas em relatórios — medos de colaboradores, hesitações de clientes, a energia invisível das equipes.
- Liderar com os olhos fechados: Como na Moon List, o que carregamos no bolso (metafórico) revela nossa maturidade: são as perguntas, não as respostas, que nos tornam ágeis.
O Território Além do Mapa
A grande armadilha do líder moderno é confundir a seta do GPS com a estrada em construção. Decorar vazios é, nas palavras de Bateson, dançar com o “não é” — aquela brecha entre o planejado e o vivido, onde moram as revoluções silenciosas. É ali que encontramos a “sustentação para relocar o selvagem e precioso”, como propõe a inspiração inicial.
Antes de sua próxima decisão relevante, revire seus bolsos. O que você está carregando? Certezas ou curiosidade? Relatórios ou perguntas? Lembre-se: o território real do negócio está sempre além do mapa. E é nos vazios, nas ausências, que se esconde a próxima página da sua história como líder.
Permita-se ser movido pelo inacabado.