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Contradições Não São Obstáculos — São Convites

23 de julho de 2025 por Andréa Nery

E se a estabilidade que você construiu com tanto esforço for justamente o que está impedindo a transformação que você sabe que precisa fazer?


Todo processo de desenvolvimento verdadeiro envolve desconforto, risco e a coragem de experimentar, errar, refletir e tentar de novo. Requer resiliência e, acima de tudo, disposição para sustentar dúvidas e abrir mão de certezas.


Tenho acompanhado muitos profissionais nesse caminho, especialmente em processos de coaching e mentoria. Quando estão no início da carreira, a busca costuma ser por desenvolvimento horizontal: ampliar repertórios, adquirir ferramentas, se conhecer melhor. São jornadas importantes, muitas vezes iniciadas por um mergulho no autoconhecimento, com mapeamentos de perfil e reflexões sobre comportamento e impacto.


Mas há um ponto em que isso já não basta. Quando os desafios se tornam mais ambíguos, o que passa a ser exigido é outra forma de evolução: um desenvolvimento vertical, que reorganiza estruturas mentais e desafia valores, crenças e padrões inconscientes. Uma transição que não diz respeito apenas ao que fazer, mas a partir de onde se opera.


Recentemente, dois casos me fizeram olhar para isso com mais nitidez.


Um executivo me procurou sob intensa pressão para tornar sua organização mais adaptável e inovadora. Ele via essa necessidade com clareza, mas sentia-se travado diante da exigência de investidores por estabilidade e previsibilidade. As demandas pareciam contraditórias e, por isso mesmo, paralisantes.


A outra situação envolvia uma executiva com longa trajetória em uma única empresa, que começava a sentir uma inquietação difícil de ignorar e percebia a resistência para sua ascensão ao próximo nível. O mercado oferecia boas oportunidades, mas ela hesitava. A mudança implicava rever não apenas sua carreira, mas também sua identidade, seus vínculos, suas referências. Ao mesmo tempo que desejava crescer, algo nela resistia.


Nos dois casos, não havia uma escolha certa, havia um campo de tensões legítimas que precisava ser habitado com mais consciência.


A tomada de decisão em contextos complexos raramente é binária. Ela pede perguntas profundas, que revelem premissas ocultas, padrões herdados, medos não nomeados. E é exatamente nesse momento que o desenvolvimento vertical se inicia.


Gosto de pensar que são as perguntas que abrem portais.
Aquelas que desarmam certezas:
Quais expectativas dos outros você leva como suas sem questionar?
Que crenças sobre sucesso, liderança ou carreira você nunca se deu o direito de revisar?

Perguntas que ativam outras lentes:
Como mais você poderia olhar para essa situação?
Que polaridade você tende a favorecer, e o que pode estar deixando de fora ao fazer isso?

Perguntas que reconectam com o essencial:
O que é verdadeiramente importante para você, mesmo que não seja visível aos outros?
O que você precisa desaprender para seguir crescendo?

Essas perguntas ganham força quando conectadas a dilemas reais, porque são nesses dilemas que a mente adulta é desafiada a amadurecer. A tensão entre crescer e sustentar, por exemplo, pode ser transformada ao reformularmos a pergunta: crescer como, crescer para quê?


A oposição entre eficiência e inovação pede menos rigidez e mais zonas seguras de experimentação, onde o erro é permitido sem comprometer as áreas críticas.
O desejo de performance individual versus a importância da colaboração pode ser revisto quando passamos a valorizar o impacto coletivo.


Nos dilemas mais íntimos, vejo a pressão pela alta performance se chocar com o esgotamento emocional. Ou ainda, a busca por sucesso externo que não necessariamente traz realização interna. E também aquela inquietação silenciosa, que surge quando a estabilidade começa a soar como prisão, e a vontade de mudar, como um sussurro difícil de ignorar.


Todas essas tensões são férteis. Não como problemas a resolver, mas como espaços a habitar com mais presença, coragem e curiosidade.


O desenvolvimento da mente adulta não acontece em linha reta. Ele exige sustentar ambiguidade, integrar paradoxos, deixar de operar no modo binário. E é justamente nesse processo que emerge um novo nível de clareza, potência e autenticidade.


Talvez a pergunta mais transformadora que possamos fazer a nós mesmos hoje seja:
Qual contradição está me provocando, e o que ela está me pedindo para transformar?


Originalmente publicado no Blog Lentes de Decisão do Estadão Digital em 23/07/2025

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