
Entre a Ansiedade do FOMO e a Curiosidade do Encontro
Nem sempre o que nos inspira está no palco ou no slide. Às vezes, está na conversa despretensiosa no banco da praça, no cheiro do pão de queijo, ou no sorriso de alguém que não espera nada de você, apenas que esteja ali, presente.
Foram quatro dias em Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas, onde o Hacktown transformou mais de 110 lugares — praças, bares, quintais, escolas — em mais de mil encontros sobre inovação, cultura, tecnologia, ancestralidade, inclusão, regeneração. Uma cidade inteira respirando possibilidades, como se cada esquina fosse um convite a rever o que chamamos de futuro.
No início, é impossível escapar do FOMO. O crachá ainda fresco no peito, a mente acelerada pelo cotidiano, e a vontade de escolher a trilha certa, conhecer as pessoas certas, estar nos lugares certos. Mas a cidade tem outro tempo. Poucos semáforos, ruas tranquilas, janelas abertas com gente conversando com quem passa. O café quentinho na padaria. A ansiedade vai cedendo lugar à curiosidade — e a pressa começa a perder a briga para o simples prazer de observar.
Comecei pelo território conhecido, buscando temas próximos ao que já estudo e trabalho. Mas logo percebi que o maior presente estava em me aventurar pelo desconhecido: uma conversa sobre a nova geração de desenvolvedores e como a inteligência artificial pode enfraquecer a visão crítica e a resiliência; uma pesquisa sobre as “personalidades” das IAs e como elas influenciam nossa forma de reagir à vida; as transformações silenciosas no foodservice impulsionadas pela tecnologia. De repente, percebi que não era sobre acompanhar tendências — era sobre expandir repertórios.
E foi na área de inovação que algo mais profundo se acendeu. A experiência deixa claro que não existe criatividade sem conexão genuína. Que estímulos sensoriais — música, natureza, conversas honestas — despertam algo que anda adormecido em nós. Participei de uma conversa sobre solidão. Os dados eram claros: nunca estivemos tão sozinhos. E, paradoxalmente, nunca precisamos tanto uns dos outros.
E, olhando para o que vi nas ruas de Santa Rita e nos palcos do Hacktown, penso no que acontece dentro das organizações. Muitos líderes e profissionais estão mergulhados em um FOMO corporativo: a ansiedade de aprender tudo sobre inteligência artificial para não “ficar para trás”. Mas talvez o verdadeiro diferencial não esteja em dominar cada nova ferramenta, e sim em se surpreender com a própria capacidade de perceber o que realmente importa para gerar valor no dia a dia. Quantos líderes estão desperdiçando potenciais preciosos por não se darem a curiosidade de explorar o que seus liderados já desenvolveram para além das competências técnicas? Talvez a próxima grande inovação da sua equipe não venha de um curso ou de um software, mas de um talento silencioso que ainda não teve espaço para ser visto.
Voltei afetada. Não no sentido frágil, mas no sentido transformador: afetada por perceber que desacelerar pode ser o que abre espaço para as melhores ideias; que olhar nos olhos pode ser mais inovador do que qualquer pitch; que estar aberto a ser surpreendido é, talvez, a habilidade mais rara no mundo hiperconectado.
Então, deixo aqui um convite: observe quem está ao seu lado. Seu vizinho, colega de trabalho, alguém na fila do café. Você ainda é capaz de sorrir e puxar conversa? De se aproximar sem pressa? De olhar para o outro não para “tirar” algo, mas para descobrir quem ele é? E se, no próximo encontro, ao invés de pensar no que você precisa dizer, você começasse se perguntando: “O que posso escutar hoje que mude algo em mim?”
Porque no fim, o que o Hacktown me lembrou é simples e urgente: precisamos reaprender a criar momentos que nos afetem e que deixem marcas. Apoiar novas gerações a cultivar sentidos profundos, intencionalmente criar espaços de encontro, dar outro significado à produtividade, resgatar a capacidade de sentir, brincar, surpreender. Não para fugir da tecnologia — mas para usá-la a nosso serviço, com visão crítica e lembrar que, antes de tudo, somos humanos.
Originalmente Publicado no Blog Lentes de Decisão do Estadão Digital em 13/08/2025
