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Quando a liderança aprende a enxergar os ciclos da mudança

14 de maio de 2025 por Andréa Nery

Mudamos. Às vezes aos poucos, às vezes num rompante. Outras vezes, apenas percebemos que mudamos quando já estamos em outro lugar, com outro olhar.


A vida nos convida — ou nos empurra — a atravessar ciclos. Mas eles não são lineares, não obedecem à lógica da escada que sobe ou desce. São mais parecidos com espirais: circulares, dinâmicas, cheias de idas e vindas. Repetimos padrões, sim, mas com um pouco mais de consciência a cada volta. Ou não.

O mês de maio sempre me faz refletir sobre ciclos, e este ano, alguns ciclos se encerraram no trabalho e na vida pessoal, e esta consciência foi despertada através do que está surgindo de novo e diferente.


Gosto de pensar nessas voltas como “salas”. Ambientes simbólicos que habitamos ao longo do nosso desenvolvimento. Lugares internos de onde tomamos decisões, onde resistimos, onde abrimos espaço para novas possibilidades — mesmo sem saber muito bem para onde elas vão nos levar.


Às vezes estamos onde tudo parece confortável o suficiente, na sala da acomodação e satisfação. A zona de segurança ainda nos abriga, mas em algum canto silencioso já sentimos que algo perdeu o brilho. Quando a suficiência deixa de ser sinônimo de plenitude, mudamos.


O que em você está pedindo movimento agora? O que você tem chamado de conforto, mas no fundo já não serve mais?


Às vezes, sem aviso, caímos na sala da negação e resistência. O espelho da autoconsciência aparece — um feedback direto, um incômodo, uma verdade que preferíamos ignorar. A resistência é humana, mas não precisa ser permanente. Quando ousamos escutar com o corpo todo, algo em nós começa a ceder. E mudamos.


Em outras vezes, nos vemos confusos. A sala da confusão não é confortável, mas é fértil. Ela nos convida a olhar para dentro e para os lados, questionar o que parecia certo demais. E queremos sair dela muito rápido. Quando temos coragem para sustentar o não saber e ainda assim seguir, fazemos escolhas conscientes. E mudamos.


Há ainda a sala da inspiração e inovação. Nela, algo se alinha. Entramos em fluxo, sentimos prazer criativo, vemos sentido no que fazemos. É um lugar de potência. Mas não é eterno. Logo, o novo vira conhecido. E o ciclo recomeça.


O que líderes muitas vezes esquecem é que podemos estar em mais de uma sala ao mesmo tempo. Em um projeto, talvez estejamos inspirados; em outro, resistindo. Na vida pessoal, quem sabe, confusos. Em outro aspecto, acomodados. O mapa é múltiplo. E está tudo bem.


O importante não é forçar a mudança, mas reconhecer onde estamos e o que esse lugar nos diz. Porque toda sala tem uma porta. E toda porta leva, inevitavelmente, a um novo movimento.


Em quais salas você tem habitado — e que partes de você talvez estejam prontas para se mover? Que sinais você talvez esteja ignorando — em si mesmo ou nas pessoas ao seu redor?


Compreender esses movimentos nos oferece um presente raro: a pausa. A aceitação. A autocompaixão. Quando reconhecemos nossas próprias espirais, somos menos duros com nossas incertezas e mais atentos às sutilezas do processo. E, talvez mais importante, começamos a perceber que o outro também está atravessando suas próprias salas — com os próprios tempos, resistências, coragens e descobertas. Se queremos caminhar juntos como equipe, como comunidade, precisamos aprender a ver o todo. A desenvolver um olhar que acolha as múltiplas jornadas que coexistem ao nosso redor, mesmo quando silenciosas.


Para mim, é assim que a espiral da vida se desenha. Círculos dentro de círculos, um pouco mais conscientes a cada volta. O poema que escrevi nasceu dessa imagem. Deixo aqui como convite à reflexão — e ao movimento:

Em certos círculos sou movimento.
Em outros eu fico parado.
Em certos círculos eu me expando.
Em outros eu contraio.
Em um círculo não há começo nem fim.
Nenhum ponto é melhor ou pior.
Círculos ao meu redor.
Círculos dentro de mim.
Sem bordas.
Um círculo pode ser nada ou qualquer coisa.
Movimentos de alegria e tristeza, noite e dia.
Todas partes do mesmo círculo.
Universo, terra, eu, átomo.
Eu vim de um círculo.
eu vivo em um círculo
Estou em uma jornada para onde tudo começou.
Um círculo em um círculo sendo eu.



Originalmente publicado na Coluna Lentes de Decisão do Estadão Digital em 14/05/2025

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