
Transformar culturas é transformar silêncios
Do silêncio que adoece ao silêncio que acolhe: qual você cultiva?
Nos últimos anos, uma verdadeira coleção de termos invadiu o mundo corporativo: quiet quitting, quiet cutting, quiet cracking. Cada um tenta dar nome a sintomas que já conhecíamos — desengajamento, cortes discretos, esgotamento silencioso. A diferença é que agora tudo vem embalado em inglês e ganha manchetes. Convenhamos: será que precisamos mesmo de tantos rótulos para enxergar o óbvio? Ou será que colecionar palavras sofisticadas virou um jeito elegante de não encarar a raiz do problema — o fato de que nossos ambientes de trabalho estão, sim, adoecidos?
Esses termos se espalham com velocidade: viram pauta de reunião, tema de palestra, slide em apresentações. Mas por trás da moda existe um custo que não cabe em gráfico: pessoas exaustas, ansiosas, inseguras. Gente que, dia após dia, perde uma das coisas mais valiosas que temos — a saúde mental.
No Brasil, já não é só percepção. Pesquisas da FGV mostram que três em cada quatro profissionais já praticaram alguma forma de quiet quitting. Outro estudo encontrou vínculos entre burnout, esgotamento e esse recuo silencioso em empresas públicas. E eu mesma vivi isso em um comitê de um grande projeto. Todos sabiam que os prazos estavam comprometidos, mas ninguém ousou levantar a mão. O clima hierárquico e pesado fez prevalecer o silêncio, que parecia proteção na hora, mas trouxe consequências sérias depois.
Esse é o silêncio que esconde. Ele não é neutro: corrói projetos, desgasta relações, empurra decisões ruins para frente. É o silêncio do medo, da desconfiança, do “melhor não falar agora”.
Mas existe outro tipo de silêncio. Lembro de um gerente que chegou até mim ansioso com um problema complexo. Queria que eu resolvesse direto, mas percebi que, se assumisse, ele perderia a chance de desenvolver sua capacidade de negociação e fortalecer relações com outras áreas. Fiz algumas perguntas, pedi que refletisse e que retomássemos no dia seguinte, após negociar um novo prazo. Quando voltamos a falar, ele estava mais calmo, trouxe ideias próprias e conseguiu alinhar as equipes. O problema se resolveu — e, mais importante, ele ganhou confiança para liderar outras situações.
Esse contraste é revelador. De um lado, a reunião em que ninguém ousa falar e o projeto afunda. Do outro, a pausa que dá tempo para pensar, reorganizar e criar novas saídas. O silêncio é o mesmo, mas a qualidade é completamente diferente.
Transformar significa reconhecer essas qualidades. Existe o silêncio que esconde, sufoca e retrai. Mas também o silêncio que acolhe — presença real, que surge quando uma reunião respeita pausas antes das respostas, quando líderes seguram a palavra para ouvir de verdade, quando há espaço para refletir antes de decidir. Ele permite que ideias amadureçam, que vozes menos ruidosas encontrem vez, que o não dito seja cuidado. Não é ausência ou passividade: é condição para a escuta profunda. É o silêncio que impede atropelos, protege a diversidade de pensamento e dá tempo para que o novo emerja. Em um mundo saturado de pressa e barulho, cultivar esse silêncio é quase um ato revolucionário. Mas não basta boa vontade. É preciso estruturar práticas e rituais: pausas deliberadas, mecanismos claros de escuta, feedbacks que mostrem que a voz de cada um faz diferença. Sem isso, o silêncio volta a ser apenas ruído abafado.
Também me vem à mente uma cliente que, mesmo esgotada, insistia em manter a agenda lotada. Dizia que não podia falhar com seu gestor e que ninguém poderia assumir suas responsabilidades. O discurso era de força, mas o corpo gritava em silêncio. Esse é o retrato de muitas organizações: transformamos a máscara da produtividade em virtude, enquanto a exaustão avança por dentro.
Não existe manual pronto para inverter essa lógica. Nosso contexto é complexo demais para caber em listas de dez passos. Não escrevo este texto para oferecer fórmulas mágicas. Escrevo para provocar reflexão. Para perguntar, sem rodeios: na sua esfera de liderança, qual silêncio você está cultivando — o que esconde ou o que acolhe?
Originalmente publicado no Blog Lentes de Decisão do Estadão Digital em 25/09/2025
