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Turismo organizacional: estamos viajando sem sair do lugar?

09 de setembro de 2025 por Andréa Nery

As organizações estão cheias de eventos, workshops e campanhas de conscientização. Setembro Amarelo, ESG, inovação, diversidade… todos esses temas têm mobilizado empresas a promover palestras e encontros. Mas será que toda essa movimentação realmente transforma a forma como trabalhamos? Ou será que estamos apenas praticando uma espécie de turismo organizacional — colecionando eventos, conceitos e frases inspiradoras, mas voltando para casa exatamente iguais?

No ano passado, vivi uma experiência marcante. Fui convidada a conduzir uma série de workshops sobre segurança psicológica em uma grande organização. Realizamos pesquisas, os colaboradores trouxeram contribuições valiosas, houve engajamento e curiosidade em aprender. Mas algo essencial ficou de fora: a alta liderança. O movimento ficou na superfície — ampliou o conhecimento sobre segurança psicológica, mas pouco se transformou no cotidiano. A intensidade daquele momento não encontrou continuidade. Ficou a sensação de que a viagem tinha sido interessante, mas o destino, inalcançado.

Isso explica por que, apesar das pesquisas e da participação dos colaboradores, a iniciativa não teve impacto duradouro: o treinamento não encontrou um ambiente — liderado pela alta direção — que sustentasse o novo comportamento. Estudos clássicos de avaliação de programas mostram que o design do curso traz ganhos, mas a sustentabilidade depende do clima organizacional e da liderança.

Em contrapartida, lembro de outra vivência em que o caminho foi diferente. Uma equipe de alta liderança buscava criar um ambiente mais inovador e resiliente durante um processo de reestruturação. Antes do desenho do workshop, realizamos entrevistas com líderes, o que permitiu que se sentissem incluídos desde o início. A partir daí, mergulhamos em diálogos mais profundos, escutando vulnerabilidades e construindo coletivamente soluções aplicáveis já nas semanas seguintes. O resultado não foi uma coleção de conceitos, mas um compromisso prático e compartilhado. O que fez a diferença? A liderança se dispôs a ocupar uma posição mais vulnerável, a escutar e a construir junto. O ambiente criado refletiu a segurança psicológica que tanto defendemos — espaço de erro, apoio, vulnerabilidade e autenticidade.

A diferença prática que observamos — entrevistas com líderes, diagnóstico e co-construção antes do workshop — está alinhada com a evidência: lideranças que se envolvem de forma transformacional (modelam, escutam e priorizam) aumentam a prontidão e o compromisso para a mudança. Por exemplo, um estudo com 237 gestores e colaboradores mostrou que organizações com líderes no quartil superior de comportamentos transformacionais tiveram 42 % maior taxa de adoção de mudanças e 37 % menos resistência em comparação àquelas com menos liderança transformacional[i].

 Não é só técnica; é estilo e presença. Esse estilo inspira lealdade, confiança e desempenho elevado ao estimular motivação intrínseca e alinhar valores individuais e organizacionais[ii].

Percebo que líderes mais resistentes ainda caem na armadilha do turismo organizacional. Entram nos workshops como se fossem passageiros de um passeio rápido: acreditam que já têm todas as respostas, tratam o processo como uma obrigação e se ausentam mentalmente em nome de “coisas mais importantes”. Nesses casos, não há compromisso, não há confiança mínima para acreditar que são ouvidos, e a experiência se esvai.

Promover mudanças organizacionais não é fácil. Não se trata de fórmulas lineares, mas de criar vivências intensas que provoquem uma pausa no fluxo diário — uma “visão de drone”, em que enxergamos de cima nossas práticas, relações e escolhas. É nesse microambiente de segurança psicológica e construção coletiva que surgem experiências marcantes, capazes de sustentar mudanças reais.

Não existe milagre. Somos nós os responsáveis por transformar nossas experiências em sentido e movimento. E é no coletivo que encontramos apoio e novas perspectivas para seguir em frente. O turismo organizacional pode até nos trazer belas imagens, mas são as viagens profundas, feitas em conjunto, que realmente nos levam a novos destinos.

Portanto, a provocação é clara: se você quer que a viagem (o workshop) leve a um destino, não a trate como evento esporádico. Priorize o diagnóstico, envolva líderes antes, eleja compromissos práticos e crie rituais coletivos de continuação — porque, sem esse trabalho cotidiano da liderança, toda experiência vira cartão-postal.

Você, líder, está pronto para viajar de verdade ou vai continuar tirando fotos bonitas do mesmo lugar?


[i] International Journal of Education and Social Research – The Impact of Transformational Leadership on Organizational Change Adoption (2025). Disponível em: ijesr.org

[ii] Burns, J. M. (1978); Bass, B. M. (1985). Revisão recente em Emerging Leadership Journeys – Transformational Leadership: The Impact on Organizational and Personal Outcomes. Disponível em: regent.edu


Originalmente publicado no Blog Lentes de Decisão do Estadão Digital em 09/09/2025

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